Archive for the 'Coréia do Norte' Category

II DEBATE: Coréia do Norte: Quo Vadis? (Parte II)

B. C. Altenburg

 Adaptar ou perecer?

 Este texto reflete alguns pequenos argumentos de resposta ao artigo escrito por João H. R. Roriz na primeira parte deste debate.

 Alguns erros sucessivos da já acostumada a catástrofe de furadas de inteligência CIA permitiu que a Coréia do Norte conseguisse desenvolver seu potencial nuclear debaixo dos olhos da administração Bush Júnior. Muitos analistas desta administração neocon argumentavam que Pyongyang jamais conseguiria chegar a ter armas nucleares por si só (aliás, ainda não se tem certeza se realmente chegaram lá sozinhos).

 Enquanto os EUA erraram no plano estratégico-militar, os japoneses erraram no diplomático. Acertadamente o governo de Shinzo Abe já vinha argumentando o perigo nuclear norte-coreano há tempos, mas quando confiou a sua desestabilização ao governo americano, cometeu um grasso passo em falso.

 E, se a situação já está perigosa com o baixinho e caricato King Jong-il, Moscou, Pequim e Seul sabem que a coisa pode ficar pior sem ele. Ditadores sanguinários de longa data tem, geralmente, a única vantagem de representar certa estabilidade nos locais onde governam. Até mesmo por isso são de longa data. Ou seja, ruim com eles… e talvez pior sem eles. De qualquer forma, o sucessor do baixinho atômico invocado pode significar mudanças. E como em política internacional, deve-se sempre esperar o melhor e estar preparado para o pior… E o pior nesse caso…

 Em um rápido exercício, contemplemos algumas opções:

 Opção 1: Guerra (como opção número 1? “Claro!”, responderiam os neocons de Bush / Cheney). Bastante improvável, como já escreveu nosso amigo João Roriz. Além das armas nucleares das duas partes neutralizarem seu uso, o exército norte-coreano está entre os maiores do mundo. Provavelmente daria uma peia grande nos seus irmãos do sul e quem sabe até nos americanos. Uma guerra convencional implicaria em muitas perdas humanas, o que reflete a uma proporção negativa de votos em Washington. Cousas de democracias.

 Opção 2: Sanções. Geralmente econômicas, inclusive de armamentos. A economia norte-coreana já sofre há tempos e até hoje não cedeu. Esta pode ser uma opção de pressão, mas a história ensina que, por si só, não é capaz de mudar a situação por completo.

 Opção 3: Contenção, isolamento e pressão. Pode ser combinada com a opção 2. Pode funcionar. Mas também pode ser um tiro pela culatra – ou seja, vai que o sucessor do King Jong-il é ainda mais imprevisível. O mais cotado é o King Jong-un, seu terceiro filho. Mas vai que acontece um golpe militar. Pior, vai que exista um período de vácuo de poder. Ninguém no poder pode ser catastrófico. Olhem para a Somália. E ainda com armas nucleares? Combinação fatal.

 Opção 4: “Chinanização”. Mudança interna de política externa – adaptação do “regime comunista” ao mundo moderno e conseqüente inclusão na sociedade internacional. Para isso acontecer, quem tem que agir – concordando com o João Roriz – é Pequim e não Washington. Ou melhor, os dois juntos. Esta opção não é nada fácil, por uma série de fatores.

 Mas me parece que a opção 4 pode ser a mais interessante. Como consegui-la são outros quinhentos. De qualquer forma, foi assim que a China evitou o destino da União Soviética, adaptando seu regime para evitar o colapso. Em um mundo pós-Guerra Fria, me parece que a mentalidade dos tempos de bipolaridade não vão trazer frutos a Pyongyang. O sistema internacional não parece disposto a permitir movimentos anti-sistêmicos de contestação ao status quo. Porque vai que outros começam a ter essa mesma ideia e começamos uma nova escalada de armas nucleares…

Anúncios

II DEBATE: Coréia do Norte: Quo Vadis? (Parte I)

Dança de estratégias

João H. R. Roriz

 Enquanto os céus estadunidenses eram coloridos por fogos de artifício no dia 4 de julho, a paisagem do céu norte-coreano tinha tons bem diferentes e uma fumaça mais perigosa. Em clara provocação ao governo de Washington, o governo de Pyongyang lançou no dia da independência estadunidense sete mísseis do tipo Scud com alcance de 500 quilômetros. Desde os testes nucleares, a Coréia do Norte já testou diversos mísseis, em aberto desafio às sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, que proibiu quaisquer atividades de lançamento de mísseis.

 Os mísseis caíram no mar que divide a Coréia e o Japão, mas segundo militares sul-coreanos poderiam ter atingido o Japão, caso fosse realmente a intenção. Enquanto os governos da Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos protestaram contra os testes, a China (país que tem política mais próxima do governo norte-coreano) e a Rússia pediram calma para lidar com a questão.

 Entre rumores da saúde do governante King Jong-il, que aparentemente sofreu um ataque do coração no ano passado, a situação interna da Coréia do Norte ainda parece um quebra-cabeças de difícil solução. Até o momento, todas as tentativas de negociação para uma solução pacífica não tiveram frutos definitivos. Os governos Jimmy Carter e Bill Clinton optaram por tentar resolver a questão através da diplomacia. George W. Bush buscou uma opção mais dura quando incluiu o governo de Pyongyang no chamado “Eixo do Mal” e deu um passo a mais ao impor sanções. Mas essa opção também falhou e a Coréia do Norte chegou a fazer testes nucleares em 2006. Quando as conversações mostraram algum sinal de vida, apoiadas pela vizinha China, a administração Bush retirou a Coréia do Norte do maniqueísta Eixo de Bush e retomou as negociações para a desnuclearização do país. No entanto, essa opção também fracassou posteriormente e a Coréia do Norte retomou seu programa nuclear.

 Dentro dos círculos da administração Bush não faltava pessoas simpáticas à opção mais extrema: guerra. Que o digam os iraquianos. Mas esta parece não estar entre as prioridades do governo Obama. De qualquer forma, a opção de conflito armado contra a Coréia do Norte não é tão simples assim. Desde a década de 1950 (quando os dois países foram divididos) até hoje as duas Coréias estão formalmente em estado de guerra. Enquanto o sul se engajou em modernização e industrialização, apoiado militarmente pelos estadunidenses, o norte focou na militarização, apoiado economicamente pela China. O exército norte-coreano é um dos maiores do mundo, está bem armado e os militares desempenham papel primordial na política interna. Segundo especialistas militares, uma invasão terrestre como aconteceu no Iraque seria impossível. As tropas norte-coreanas estão extremamente próximas de Seul, a capital sul-coreana. Além do mais, jamais houve uma guerra formal entre dois Estados detentores de armas atômicas – os riscos seriam enormes. Assim, uma guerra convencional parece ser uma opção muito distante e improvável.

 As esperanças para resolver o problema herdado da época da Guerra Fria parecem ter resposta em uma estratégia também dos tempos de bipolaridade. Distensão, isolamento, contenção e pressão foram táticas advogadas por estadunidenses para combater a União Soviética. Acreditava-se que o regime interno entraria em colapso e implodiria com o tempo, sem a necessidade de guerra formal. Contudo, a mesma estratégia com a Coréia do Norte é extremamente arriscada. O país poderia entrar em um caos interno e o vácuo de poder deixado por King Jong-il poderia ser ocupado por um governo ainda mais instável e imprevisível.

 Outro fator vital para o sucesso dessa opção são os vizinhos. O envolvimento dos grandes na região, como Japão e Rússia, é basilar. Mas provavelmente o ator mais importante é a vizinha China, que já foi a principal sustentadora do regime comunista norte-coreano. O governo de Pyongyang só estará realmente isolado e incapaz de manter economicamente o seu enorme exército caso o governo de Pequim também se engaje nessa alternativa. As esperanças de uma resolução fácil para a questão ainda permanecem longínquas e as estratégias para se evitar uma guerra nuclear ainda não deram resultados. Enquanto isso o mundo espera que, dessa vez, a diplomacia vença as armas.