A Pista Pernambucana…

                                                                                        Jean-Marie Lambert

A Pista Pernambucana…

 

A Boêmia faz parte da atual República Tcheca. Abriga importantes minorias de ciganos famosos pelo estilo de vida particularmente inadaptado às exigências capitalistas de produtividade.

Conta a tradição que foram arrancados de uma região próxima à Caxemira em conseqüência de sucessivas invasões da Índia por conquistadores do tronco mongol que martelavam sistematicamente as fronteiras orientais.

Os ataques saíam das estepes da Ásia Central e atingiam essencialmente a região do Bengal, provocando gigantescas ondas migratórias para o oeste e novos encontros-conflitos com outras populações … que absorviam o impacto, recuando e atropelando mais gente no caminho.

Foi um lento processo cujas causas primeiras os protagonistas sequer conseguiam visualizar. O empurrão da frente era sistematicamente repassado para trás, redesenhando por repercussão todo o mapa demográfico da região até os limites ocidentais do Subcontinente.   

Os tziganes ocupavam o fim-de-linha geográfico das ondas de choques. Sofriam os efeitos cumulados do fenômeno e viam-se constantemente obrigados a deslocar-se para amortecer os golpes, desenvolvendo, por força das circunstâncias, o modo nômade com que alcançaram os tempos modernos …

Todo povo acha segurança na explicação plausível da origem e dos próprios valores. O relato, portanto, deve ter sido arranjado por uma cultura em busca de conforto psicológico e auto-estima, mas não há dúvida de que comporta o fundo de verdade em que se constroem as lendas.

Foi-me contada por ciganos com quem mantive uma forma particular de amizade na Europa. Tratava-se de um relacionamento um tanto distante e esporádico, porque a turma não correspondia ao que chamaríamos de gente boa. Envolviam-se com proxenetismo, droga, receptação … e eram totalmente avessos a qualquer disciplina de trabalho, mas representavam um tipo antropológico diferente que despertava minha curiosidade.

Sua vida se consumia em farra, música, choro e riso. Bebiam, cantavam e brigavam, levando uma existência que, por associação à procedência, as línguas latinas apelidaram de boêmia.

Mas tudo não foi vulcão de emoção naquele canto da Europa Central, que abrigou também grandes bolsões germânicos. E uma dessas comunidades ocupou o chamado Joachimsthal, ou seja, o Vale de Joaquim onde, no século XVI, circulava uma moeda com nome de Joachimsthaler.

O sufixo “er” indica a origem de uma pessoa ou de um objeto, funcionando como o “ense” de goianiense em português, e a unidade monetária em questão foi inicialmente conhecida sob essa designação. Mas a lógica do idioma alemão, que permite formar palavras por aglutinação, abre a possibilidade inversa de desmembrá-las para isolar seus elementos componentes … e é precisamente o que aconteceu com o numerário em questão, que encurtou a denominação para “thaler”, alguma coisa como “do vale” ou – com certo risco de cacofonia – “valesiano”.        

A cédula em si sumiu do mapa, mas seu nome viajou pelo mundo e foi recuperado pela América do Norte sob a forma estropiada de dólar. Como isto aconteceu exatamente não está claro para mim, mas imagino que passou pelos corredores transnacionais dos banqueiros judeus que funcionavam como vetores de um jargão em uso tanto no Velho Continente quanto nas colônias.

É interessante notar que a vertente portuguesa da diáspora, depois de expulsa de Lisboa pela Inquisição, foi buscar refúgio na protestante Holanda e bancou – como que para dar o troco – a invasão do Recife pelos flamengos. Quando Maurício de Nassau se retirou em troca de territórios lusitanos na Ásia e de uma sólida compensação financeira, logo após a segunda derrota dos Guararapes, os hebreus pegaram a indenização e migraram para a colônia batava de Nieuw Amsterdam … que virou New York depois da conquista pelos ingleses.

Talvez se tivessem ficado por aqui, nós seríamos eles e eles seriam nós. Quem sabe, moraríamos em Goiânia City, na Anhangüera Avenue ou no glamourous Pedro Ludovico Boulevard. Em compensação, teríamos que ir brigar no Afeganistão, no Iraque, nas Filipinas e só Deus sabe aonde para segurar as pontas do império … o que, definitivamente, não vale o gostoso balanço do forró. Mas, brincadeira à parte, é de se notar que a forma holandesa de “thaler” era “daler” … muito mais próxima ainda do atual “dollar”.

O fato parece corroborar o rodeio pernambucano. Mas, seja qual for o real percurso do termo, constata-se que passou a designar o título representativo do mais agressivo ordenamento monetário de todos os tempos. Respaldado por um inédito poderio militar, invadiu o espaço decisório dos parceiros, atropelou sua soberania financeira e moldou suas normas contábeis como lhe convinha.

A moeda cunhada em Bagdá foi a última a tombar frente à lei implacável do Federal Reserve. Circula internamente – sem a efígie do Saddam, bem entendido – porém revestida da disciplina monetária do Império Dólar.

Não é nessa intrincada questão que pretendo enfiar a cabeça, contudo. Estou sempre a tentar provar um milhão de coisas complicadas, mas hoje, acordei com desejos de diletantismo descompromissado e vou ficar na boemia do passeio etimológico …

No confronto da anterioridade, pelo menos, o dinar iraquiano ganha de longe, pois o vocábulo designa os sucessivos meios circulantes da região desde os primórdios do Califato Abássida em 750. Mas sua história começa bem antes ainda … com a invasão de Alexandre o Grande, 300 anos antes de Cristo. É, portanto, herança helenística que entrou sob a forma de  denarion , foi para o latim denarius , o árabe  dinar  … e virou dinheiro no molho português.

Mas – falando de história – fiquei im/pres/sio/nado com a travessia do Mar Vermelho. Sabe … Moisés. Caramba! As barcaças. Os jipes anfíbios. Mísseis israelitas detonando tanques. E a aviação egípcia despejando bombas …

O quê ? Estranho, ´cê disse !?

Bem. Não é exatamente a versão do padre na missa. Mas, se te contar como ele conta … Rappaiz! Você me manda às favas. Isso é batuta.          

 

Leitura recomendada: Os Judeus, o Mundo e o Dinheiro – Jacques Attali(Futura)

 

 

4 Responses to “A Pista Pernambucana…”


  1. 1 Carlos Eduardo 14/07/2009 às 10:06

    ?????????????

    QUE TEXTO É ESSE????????

    Acho que esse barbudo desse autor está usando drogas… certeza…

  2. 2 Marcela Repezza Issy 02/03/2011 às 9:38

    Professor Jean Marie,

    Sou aluna da graduação de Direito da PUC e preciso de uma orientação quanto ao tema da minha monografia. Gostaria de escrever sobre direito ambiental e direito internacional já com foco num futuro trabalho de mestrado.
    Se puder me ajudar com a escolha tema, ficarei muito agradecida e lisongeada.
    Apesar de nunca ter tido o grande prazer e a honra de ter sido sua aluna, o senhor é uma grande referência para mim.
    Obrigada,

    Marcela Repezza
    marcelarepezza@gmail.com

  3. 3 Jean-Marie Lambert 03/03/2011 às 9:34

    Oi, Marcela ! Tenho um tema legal p/ vc. Trata-se de um projeto de recuperao energtica do lixo. Tecnologia 100% nacional. H vrias facetas jurdicasa p/ se trabalhar. Veja anexo + vdeo Globo News em http://www.naturezalimpa.com. Depois, vc liga p/ mim. Estarei em casa no feriado de carnaval : 35655093. Abs, Jean

  4. 4 Jean-Marie Lambert 03/03/2011 às 9:36

    Esqueci de anexar !


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