Arquivo de julho \13\UTC 2009

A Pista Pernambucana…

                                                                                        Jean-Marie Lambert

A Pista Pernambucana…

 

A Boêmia faz parte da atual República Tcheca. Abriga importantes minorias de ciganos famosos pelo estilo de vida particularmente inadaptado às exigências capitalistas de produtividade.

Conta a tradição que foram arrancados de uma região próxima à Caxemira em conseqüência de sucessivas invasões da Índia por conquistadores do tronco mongol que martelavam sistematicamente as fronteiras orientais.

Os ataques saíam das estepes da Ásia Central e atingiam essencialmente a região do Bengal, provocando gigantescas ondas migratórias para o oeste e novos encontros-conflitos com outras populações … que absorviam o impacto, recuando e atropelando mais gente no caminho.

Foi um lento processo cujas causas primeiras os protagonistas sequer conseguiam visualizar. O empurrão da frente era sistematicamente repassado para trás, redesenhando por repercussão todo o mapa demográfico da região até os limites ocidentais do Subcontinente.   

Os tziganes ocupavam o fim-de-linha geográfico das ondas de choques. Sofriam os efeitos cumulados do fenômeno e viam-se constantemente obrigados a deslocar-se para amortecer os golpes, desenvolvendo, por força das circunstâncias, o modo nômade com que alcançaram os tempos modernos …

Todo povo acha segurança na explicação plausível da origem e dos próprios valores. O relato, portanto, deve ter sido arranjado por uma cultura em busca de conforto psicológico e auto-estima, mas não há dúvida de que comporta o fundo de verdade em que se constroem as lendas.

Foi-me contada por ciganos com quem mantive uma forma particular de amizade na Europa. Tratava-se de um relacionamento um tanto distante e esporádico, porque a turma não correspondia ao que chamaríamos de gente boa. Envolviam-se com proxenetismo, droga, receptação … e eram totalmente avessos a qualquer disciplina de trabalho, mas representavam um tipo antropológico diferente que despertava minha curiosidade.

Sua vida se consumia em farra, música, choro e riso. Bebiam, cantavam e brigavam, levando uma existência que, por associação à procedência, as línguas latinas apelidaram de boêmia.

Mas tudo não foi vulcão de emoção naquele canto da Europa Central, que abrigou também grandes bolsões germânicos. E uma dessas comunidades ocupou o chamado Joachimsthal, ou seja, o Vale de Joaquim onde, no século XVI, circulava uma moeda com nome de Joachimsthaler.

O sufixo “er” indica a origem de uma pessoa ou de um objeto, funcionando como o “ense” de goianiense em português, e a unidade monetária em questão foi inicialmente conhecida sob essa designação. Mas a lógica do idioma alemão, que permite formar palavras por aglutinação, abre a possibilidade inversa de desmembrá-las para isolar seus elementos componentes … e é precisamente o que aconteceu com o numerário em questão, que encurtou a denominação para “thaler”, alguma coisa como “do vale” ou – com certo risco de cacofonia – “valesiano”.        

A cédula em si sumiu do mapa, mas seu nome viajou pelo mundo e foi recuperado pela América do Norte sob a forma estropiada de dólar. Como isto aconteceu exatamente não está claro para mim, mas imagino que passou pelos corredores transnacionais dos banqueiros judeus que funcionavam como vetores de um jargão em uso tanto no Velho Continente quanto nas colônias.

É interessante notar que a vertente portuguesa da diáspora, depois de expulsa de Lisboa pela Inquisição, foi buscar refúgio na protestante Holanda e bancou – como que para dar o troco – a invasão do Recife pelos flamengos. Quando Maurício de Nassau se retirou em troca de territórios lusitanos na Ásia e de uma sólida compensação financeira, logo após a segunda derrota dos Guararapes, os hebreus pegaram a indenização e migraram para a colônia batava de Nieuw Amsterdam … que virou New York depois da conquista pelos ingleses.

Talvez se tivessem ficado por aqui, nós seríamos eles e eles seriam nós. Quem sabe, moraríamos em Goiânia City, na Anhangüera Avenue ou no glamourous Pedro Ludovico Boulevard. Em compensação, teríamos que ir brigar no Afeganistão, no Iraque, nas Filipinas e só Deus sabe aonde para segurar as pontas do império … o que, definitivamente, não vale o gostoso balanço do forró. Mas, brincadeira à parte, é de se notar que a forma holandesa de “thaler” era “daler” … muito mais próxima ainda do atual “dollar”.

O fato parece corroborar o rodeio pernambucano. Mas, seja qual for o real percurso do termo, constata-se que passou a designar o título representativo do mais agressivo ordenamento monetário de todos os tempos. Respaldado por um inédito poderio militar, invadiu o espaço decisório dos parceiros, atropelou sua soberania financeira e moldou suas normas contábeis como lhe convinha.

A moeda cunhada em Bagdá foi a última a tombar frente à lei implacável do Federal Reserve. Circula internamente – sem a efígie do Saddam, bem entendido – porém revestida da disciplina monetária do Império Dólar.

Não é nessa intrincada questão que pretendo enfiar a cabeça, contudo. Estou sempre a tentar provar um milhão de coisas complicadas, mas hoje, acordei com desejos de diletantismo descompromissado e vou ficar na boemia do passeio etimológico …

No confronto da anterioridade, pelo menos, o dinar iraquiano ganha de longe, pois o vocábulo designa os sucessivos meios circulantes da região desde os primórdios do Califato Abássida em 750. Mas sua história começa bem antes ainda … com a invasão de Alexandre o Grande, 300 anos antes de Cristo. É, portanto, herança helenística que entrou sob a forma de  denarion , foi para o latim denarius , o árabe  dinar  … e virou dinheiro no molho português.

Mas – falando de história – fiquei im/pres/sio/nado com a travessia do Mar Vermelho. Sabe … Moisés. Caramba! As barcaças. Os jipes anfíbios. Mísseis israelitas detonando tanques. E a aviação egípcia despejando bombas …

O quê ? Estranho, ´cê disse !?

Bem. Não é exatamente a versão do padre na missa. Mas, se te contar como ele conta … Rappaiz! Você me manda às favas. Isso é batuta.          

 

Leitura recomendada: Os Judeus, o Mundo e o Dinheiro – Jacques Attali(Futura)

 

 

A Guerra do Dólar

                                                                                             Jean-Marie Lambert

A Guerra do Dólar

 

Para minha amiga Bebel de Brasília

 

Bush tinha problemas com Saddam Hussein … e o maior deles, na área monetária.

Para entendê-lo, basta imaginar uma economia sem contato com o mundo externo, com produção de 10 pirulitos por ano. Uma fábrica, um empresário mais um operário resumem a vida econômica em foco. Com dez balas montadas em palito a configurar o Produto Interno Bruto, e algumas crianças felizes em guisa de mercado.

E mais: 10 Unidades Monetárias em circulação. De sorte que cada uma delas acha equivalente na forma de bola açucarada.

A meninada, portanto, entra na padaria com seu dinheirinho sem dúvida de sair apreciando um gostoso caramelo porque há oferta real em contrapartida.

Enquanto perdurar o equilíbrio, a moeda está a salvo e qualquer um a aceita com certeza de trocá-la por doce quando quiser. Mas, vá lá que as autoridades inventem de soltar notas sem aumento correspondente de produção, tipo 11, 12, 13 UM … para um Produto constante de 10 pirulitos!

Numa esfera econômica fechada por hipótese e com propensão a consumo de 100%, não há outra opção a não ser converter todo esse dinheiro nas mercadorias efetivamente disponíveis. E não precisa ser feiticeiro para adivinhar o resultado: a proporção de troca refletirá a quebra de balanceamento entre o volume monetário e a massa produzida, gerando uma inflação de 10  … 20 … 30% … e assim em diante … até a criançada desconfiar da existência de melado e desinteressar-se do título sem lastro.

O maior problema do Federal Reserve consiste precisamente em manter o aludido equilíbrio entre o dólar e o PIB mundial.

A moeda cunhada em Washington não ocupa todo o espaço financeiro internacional, mas tem vocação para tanto… e andou avançando muito nos 60 anos em que, ao amparo das regras de Bretton Woods, o Banco Central estadunidense funcionou como Casa da Moeda Mundial a emitir o equivalente universal da riqueza planetária, comprando o mundo com cheque molhado no suor da humanidade.  

É preciso entender que nota bancária não é apenas papel: é lei … ordenamento jurídico. E o dólar é vetor de uma forma perversa de colonização monetária em que cada recuo de soberania nacional corresponde a um avanço de autoridade americana … com o resultado final de arrolar a todos em projeto global de engorda da moeda do Norte em detrimento das outras !

Ouvi falar de um passarinho preguiçoso que não choca os próprios ovos. Bota em ninho vizinho e terceiriza incubação como criação de progenitura. Sempre escolhe pais de aluguel de porte menor, de sorte que os filhotes biológicos não tenham dificuldade em derrubar os irmãos adotivos para monopolizar o esforço alimentar do casal despercebido.

O Federal Reserve tem comportamento parecido: põe moeda parasita em banco central alheio, com vocação para tirar o numerário local do pedaço e disciplinar a ceva via tarefas de casa ditadas pelo FMI e criaturas da mesma natureza.

Não é só o Brasil que trabalha enganado para manter o dólar em seu pedestal, pois – na conversa ou à força – boa parte do mundo vive aprisionado nessa lógica.

Saddam sabia da trapaça a sustentar o Tio Sam… e resolveu puxar o tapete do dinheiro verde. Tinha poder para tanto, porque controlava um pirulitão a servir de lastro.

Eis que gigantescas parcelas das cédulas em circulação – precisamente apelidadas de petrodólares por reinarem nos mercados petrolíferos – ficariam dramaticamente descobertas sem contrapartida em hidrocarboneto.

Com a intenção de contribuir para esse resultado, o líder iraquiano abandonou o dólar e passou a exigir pagamento em euro, deslastreando assim um império financeiro com o efeito de lastrear outro.

A pegar, a moda selaria a morte do primeiro com o nascer do petro-euro! E o centro de gravidade das finanças internacionais – que migrou da Europa para Nova Iorque em conseqüência das duas Guerras Mundiais – acharia o caminho de volta para o Velho Continente.

Pior: a Terra regurgitaria montanhas de dólares sem fundo, obrigando a América do Norte a resgatar meio século de farra. E  bye-bye happiness ! Viraria Terceiro Mundo … com a honra de destronar o Haiti da  pole position  na largada da pobreza!

É a capacidade de comprar o Planeta com papel que está em jogo. E, com isso, as bases do poder imperial!

Difícil de entender? Não faz mal. Explico tudo de novo. Mas se liga, desta vez. Caso contrário, vai pedalar para sustentar acionista de Wall Street até o último sopro.

Toma café no lanche da Maria … e analisa.

Pastel e coxinha? Que nada! Você vai comer é trabalho … da salgadeira que encheu a estufa … do motorista de ônibus que a trouxe à quitanda … do fazendeiro que plantou o trigo da farinha … do pedreiro que ergueu as paredes da cozinha …          

Pode não reparar, mas há correntes humanas infinitas turbinando em função da sua barriga. É uma sociedade em movimento! Na churrascaria do Einstein, por sinal, nem se fala de picanha: é rodízio de trabalho social  … porque ciência só quer saber de essência.

Mas olha lá que moça linda! Modelito militante … estilo tênis-camiseta, calça jeans e boné vanguarda. É trabalho purinho. Dos pés até a cabeça! Armazena suor de costureira … esforço de sapateiro … arte de cabeleireiro. Tanta gente no agita pra produzir a boneca! Sem desprezar a meiga tia das contas e vírgulas. Nem o sisudo professor de física quântica. Porque o  look  é nota dez, mas a moringa espanta mais ainda: ela é cobra … ensinada … intelectualmente trabalhada.

Namorados marxistas é que sabem dessas coisas. Tipo PSTU paquerando PT radical. É “meu doce trabalhinho” de cá … “meu gostoso produtão” de lá! Só juras de amor lá por trás das aparências.

Lanchou? Acertou? Pois bem. Comeu trabalho com cara de empada e pagou com trabalho sob feição de nota bancária. Pois o que se transaciona, no fundo, é esforço humano sob formas distintas. E moeda é mercadoria no meio das outras. Porém, com a propriedade bem particular de trocar-se por todas as demais. A contrapartida genérica do trabalho social, em suma.

Suco de laranja por 1 real no Pão Quente da esquina, portanto. Mas fragmento de PIB sob aparência de suco por fração de PIB sob disfarce de moeda na padaria do tio Marx.

Legal! E não é diferente no plano internacional. Quer ver?

Comerciante de Genebra compra soja do Paraná: vai labuta brasileira trajada de farelo e vem labor suíço fantasiado de franco.

´Peraí! Cédula não incorpora diretamente trabalho: é antes promissória sacada contra a economia helvética… conversível em produção quando o portador quiser. Suíço, portanto, leva trabalho e entrega papel… mas sai da transação com déficit a resgatar lá na frente com gostoso chocolate.

Empate, pois! Produto vai… produto vem. É justo. Equilibrado. Cada qual adquire trabalho do outro em troca do seu. E ninguém espalha moeda além da real capacidade produtiva, pois atitude contrária é bancarrota na certa.

Enquanto PIB mexicano garantir o peso… riqueza da Índia lastrear a rúpia… e cada qual se responsabilizar pelo próprio título, portanto, não há trapaça em vista e todos andam seguros.

Mas aqui está precisamente o problema do dólar estribado em canseira de raça humana!

Por que… pensa bem!

Argentino produz sapatos… vende para alemão… recebe dólares… e importa petróleo da Arábia Saúdita.

Viu? Teve de trabalhar e exportar para ter acesso a patrimônio alheio. Mas americano não precisa se esforçar tanto para conquistar o dólar mágico… porque tem gráfica em casa! Representa o início, a gênese, o fiat lux  do cosmos monetário. 

Epa! Tem alguém ganhando a vida de graça! Há espertos pegando atalho para levar trabalho sem devolver trabalho!?! Genial! Americano emite moeda que compra o mundo, mas o mundo não emite moeda que compra americano. Olha só!?! Agora que me toco com a conversa do Keynes em Bretton Woods! Sabe… essa estória de moeda universal administrada por um Banco Central Internacional. O mundo emitindo título a comprar o próprio mundo ! Isso é que seria certo! Mas o que ficou foi uma nação imprimindo papel a comprar as demais !?!    

No final, uma empresa nova-iorquina obtem aço de Bruxelas e paga com dólar… mas a Bélgica não cobra o equivalente em mercadorias na economia americana: pega sim as verdinhas e compra calçados da Indonésia… que adquire material eletrônico de Taiwan… que importa arroz da Índia… e assim em diante… com a mesma moeda!

Suíço entrega queijo ou chocolate, mas americano não solta nada… a não ser um recibo do qual se isenta, deixando Céu e Terra labutar para gerar cobertura!

É carne contra cheque que açougueiro repassa no mercadinho em troca de leite… de onde vai ao posto para encher o tanque… seguindo caminho infinitamente sem real compensação na conta emitente. 

Não existe a cobrança de sempre. O dono da promissória se livra da falência diluindo o negativo lá na conta dos clientes. Mas engasgo rio abaixo é pororoca instantânea na cabeceira! E não há produto para resgatar 6 décadas de irresponsabilidade…

Eis o drama ! Tem muito mais dólares fora que dentro de casa… e montanhas de papel voltando de repente redundaria em morte do emitente… que teria de trabalhar um milênio para saldar a dívida ou então dar o calote.

O cenário poderia até desencadear uma gigantesca redistribuição de renda indevidamente confiscada. Um país ficaria menos rico e muitos outros, menos pobres.

Saddam Hussein, de qualquer forma, não apreciava o truque do lucro emergindo de um lado com prejuízo saindo do outro. Ninguém dizia – a não ser Alá – tem direito de capitalizar trabalho alheio por emissão monetária. E dava o mau exemplo. Pois, além de romper a fungibilidade dólar/petróleo no espaço iraquiano, instigava outros a seguir o raciocínio ! 

Bilhões de dólares feitos elétrons soltos do firmamento monetário! Sem opção de rumo. Convergindo que nem chuva de bólidos para o Sol do sistema a implodir o Federal Reserve por hipercondensação financeira.

Um  Big Bang  às avessas que o Pentágono tentou barrar substituindo o regime baathista por um governo pró-dólar… o que Chirac e Schroeder, por sinal,  queriam evitar em defesa do euro!

Há, pois, uma moeda militar no comando da Casa Branca. Desconectada de qualquer equilíbrio macro-econômico e desaforadamente indisciplinada, deve a vida à capacidade bélica de impor uma regra da qual o poderoso George era mera marioneta.

Por ela o canhão fala, a ditadura mata, a corrupção impera e a mentira se instala. É fenômeno de longa data. A América Latina que o diga com seus Pinochets de triste memória. Mas… francamente… desta vez, caprichou em Bagdá. Foi um nó sem ponta. E – cá entre nós – nota 10 na corda ! O Sadam, por sinal, confirma…      

Assim fala Hugo Chavez…

Jean-Marie Lambert

Assim fala Hugo Chavez…

 

Difícil entender os sentimentos que batiam no peito dos bravos de Ayacucho.

Uma marcha forçada. A vigília. O som da corneta. E a certeza da batalha …

Quem sou eu no meu conforto e quem é você no ar condicionado para imaginar tamanho sofrimento? A vida moderna desarma a mente para penetrar façanhas passadas. Mas houve sim glória de sobra no caminho das Independências.            

A epopéia foi una, do Mar Del Plata ao Rio Grande. Porém com heróis de coloridos diferentes. E – sem desmerecimento das demais partes – a Venezuela é que mais brilhou em quantidade e qualidade. Porque, se todos por igual forneceram combatentes, só Caracas soube pensar grande.

A história achou aí densidade dramática particular sob a liderança de alguns nomes que a mística latina genericamente faz sua, mas que são de pleno direito patrimônio caribenho. Miranda, Sucre e Paez eram venezuelanos. Mas Santander não fugia muito à regra, pois nascera em Cucutá logo atrás da fronteira, quando a Colômbia como tal nem sequer existia.

O maior expoente foi Simon Bolívar, porque tinha projeto subcontinental de integração político-econômica nos moldes da contemporânea experiência norte-americana.

Morreu abandonado por uma burguesia intelectualmente inapta e se apagou nos braços da meiga quiteña que tanto amara e tanto traíra. Adorava Manuelita e todas as outras, pois era “galinha”. Porém, foi fiel à doutrina libertadora até na morte, porque lidera da tumba mais uma revolta que bem poderá mexer fundo nas formas de decidir, produzir e distribuir até hoje dominantes na América Latina.

A proposta contra-hegemônica a renascer do passado não bate à risca com a visão primeira, porque há 200 anos entre o Libertador e Hugo Chavez Frias. O quadro se enriquece conseqüentemente ou se empobrece de outras tonalidades, mas a idéia base permanece, incomodando e agradando essencialmente os mesmos interesses. Pois o percurso da região balança entre a abertura sobre os grandes centros financeiros internacionais e a opção nacionalista de desenvolvimento endógeno. Duas apostas mutuamente excludentes a disputar corações e mentes no fragor das armas e no calor de um debate que não se cansa de morrer e renascer com cada geração e a cada golpe.

O primeiro termo da alternativa sempre venceu com apoio de Londres ou Washington conforme a hora, mas o espírito da segunda tem vida longa e fura o cerco cá e lá. A briga chavista, portanto, é cara nova para coisa velha a opor forças de dentro e poder de fora no embate tronco da saga latina. Socialismo do Século XXI, em suma, é contingência cosmética, porque o DNA estruturante contém uma autêntica luta de classes sem fronteiras, com estratégias de retenção barrando um clássico confisco de renda petrolífera.

O estudo do fenômeno é delicado. Porque há uma metódica exposição mediática a estímulos negativos. O projeto, com efeito, repousa em ruptura de paradigma que visa o fim do atual modelo de domínio hemisférico, e o sistema imunológico reage com todas as armas.  Chavez – em síntese – é corpo estranho. Portanto, micróbio letal e filho do diabo. Representação isenta implica, pois, prudência e crítica: é preciso despoluir o cérebro e desligar o taxímetro para explorar o quadro do ponto zero.  

Quer ver o recorrente argumento do autoritarismo? Você sabe: o homem é mandão, ditador, antidemocrático. Falso ou verdadeiro?

Bem. Você marcou a segunda alternativa por condicionamento pavloviano. Mas eu fucei na Venezuela, enquanto você fixava a Globo. E veja o que achei … a começar pela personalidade do chefe.

O Chavez do mito televisivo é golpista mal sucedido que fracassou na tentativa de tomar o poder à força em 1992.

Sim e não. O juízo depende finalmente de contextualização. Porque a extensão do campo de observação à década de 80 revela outra coisa. Não tem como negar o atropelamento das instituições por tanques de guerra, bem entendido. Porém, a forma de exercer o poder naquela hora não era bem o ideal que almeja a mente moderna.

A Venezuela banhou no mais retrógrado caudilhismo até as vésperas da Segunda Guerra. Um período que a historiografia oficial tende a encerrar em 1935 com a queda de Juan Vicente Gomes, mas que se pode razoavelmente prolongar até o fim do regime Perez Jimenez em 1958, já que a época se caracteriza por uma contínua concentração de autoridade na elite branca em detrimento da maioria parda.

A estrutura classista era racial e devia a vida à repressão militar em última instância. Um quadro que mudou um tanto nos anos 60 com o advento de governos civis estáveis a garantir uma sucessão pacífica durante duas décadas …

Era aparência enganosa, no entanto, porque a calma escondia um acordo mafioso a confiscar a decisão em favor de dois partidos. Tipo, eu ganho a presidência e te nomeio primeiro ministro ou vice versa. E, do resto, a gente divide os cargos sem briga.

O pacto entre Acción Democrática e o COPEI social cristão, passou para a crônica com o nome de Punto Fijo por referência à residência do então presidente Rafael Caldera onde fora firmado para tornar-se Carta Magna de uma cultura de panelinhas conhecida como puntafijista em que não havia bate-boca nem tampouco democracia, já que o eleitor não tinha escolha a não ser votar em coisa igual para ficar com igual coisa.

De pizza em tapinha, a mediocridade tomou conta. Porém, com renda petrolífera amenizando os efeitos da roubalheira. Até que Reagan resolvesse destruir a União Soviética de qualquer maneira. E é exatamente onde o amigo Hugo sai pela culatra, porque a tática – entre manipulações monetárias e financeiras a esfomear meio Planeta – comportava uma vertente comercial visando derrubar as cotações de hidrocarbonetos, que representavam a principal fonte de divisas da Rússia … mas também da Venezuela!

Washington, que tinha raiva de Moscou, traçava estratégias globais a distribuir o ônus da intriga nas periferias. E Caracas engoliu o lucro cessante em aperto de cinto e ortodoxia fiscal numa sangria que misturou programa de FMI com esmola de BIRD para deixar um país anêmico quebrando ônibus e jogando pedras na polícia …

A crise incubada na geopolítica de lá eclodia assim nas panelas de cá numa lógica que qualquer governo minimamente nacionalista barraria com moratória. Mas Carlos Andrés Perez cumpriu a parte que lhe tocava na ordem imperial e mandou o exército controlar a rua.

Um massacre! Centenas de mortes. Ou até milhares segundo a fonte. Fossas comuns. Desaparecidos aos montes. E soldados atirando na própria gente …     

Estupefatos e indignados até a medula, alguns oficiais juraram defender a pátria com a criação de um movimento batizado de Bolivariano Revolucionário.

Chavez liderava o baile, mas sem saber bailar, porque tinha formação de quartel e carecia de malícia política. Agia por espontânea busca de justiça e foi parar atrás das grades por falta de experiência … porém feito para sempre herói-mor da pobreza.

Teve tempo de sobra para Maquiavel e aproveitou os tempos de cárcere para conquistar envergadura teórica. Nunca incorporou o marxismo como base filosófica de relação com a vida, porque tem sentimento religioso que rejeita o mundo de átomos e vácuos da visão materialista. Deus criou, pois, o cosmos e as estrelas. Isso não se nega. Mas deixou procuração com Adão e Eva para a organização do universo social. E eis onde entram alguns conceitos marxistas …

O trauma nasce do episódio de 1988. É ponto pacífico. Houve gatilho moral e problema de consciência a questionar a opção de um governo mero receptáculo de vontade alienígena.

Chavez rejeita essa inversão de função. Não é caixa de correio estadunidense e nem quer saber o que o Tio Sam dele pensa. Diz claramente quem é dono da casa. O que incomoda, com certeza. Tanto mais que a proposta é extensiva à América Latina. Mas ele topa a parada e vai tranqüilo à luta.

Primeiro, tem que re-nacionalizar o que foi privatizado. Porque (ponto A) democracia implica decisão. O que tem a ver com força. E capital é poder. Sem o qual não há democracia. Nem projeto nacional. Porque inexiste capacidade decisória.

E (ponto B) meio de produção é fonte de acumulação.

Portanto (ponto C), entregar a propriedade do aparato produtivo a controle estrangeiro é desistir de capitalizar o próprio trabalho e abortar a formação de um poder autônomo. Um círculo de idéias a mover o raciocínio para voltar impiedosamente no mesmo fecho, sem concessão, bifurcação ou desvio …

Democracia bolivariana, nessa perspectiva, tem dimensão instrumental muito além do sistema eleitoral. É ferramenta coletiva de moldagem socioeconômica. E se não responder a tal conceito, melhor ficar em casa que se incomodar com voto.

O jogo, no fundo, se propõe reter riqueza em proveito de quem realmente a cria, mas a estratégia não se limita à faceta patrimonial pura: ataca o plano monetário, marginalizando o dólar para organizar o escambo de carne argentina ou serviços educacionais cubanos por petróleo; corta o Banco Mundial para criar o BANCOSUR e propor uma nova sistemática desenvolvimentista; sai das negociações da ALCA e lança o bloco da ALBA; enfim, revisa toda regra por onde o confisco passa.

O problema está na álgebra. Porque todo + implica um – . E, na refrega, o Norte perde o que o Sul ganha. É o princípio da distribuição internacional de renda. E, naturalmente, tem gente que chia. Muito alto, por sinal. Porque controla os satélites e todas as caixas de ressonância da mídia.      

De qualquer forma, a Venezuela toca seu bonde, educa seus filhos e cuida dos seus doentes. Há hospitais com enfermeiras cubanas em cada esquina e 40.000 bolsistas a estudar medicina em Havana. Sem falar dos supermercados públicos vendendo bife a preço de banana. A miséria – tão simples assim – acaba de ver médico, presunto e água encanada pela primeira vez na vida!

Caracas, por sinal, achou jeito de zerar fome e dívida externa com uma só cajadada. E, mendiga na virada no século, virou investidora pelo mundo afora.

Revoluciona a estrutura energética de Buenos Aires a Manágua.  Espalha empresas mistas em Havana e na Bolívia. Quebra monopólios mediáticos no Equador. Instala hospitais no Haiti e refinarias na Jamaica. E, sobretudo, capitaliza a renda petrolífera, que abandona as praças financeiras internacionais para virar bem-estar em casa.

De dividendo na bolsa nova-iorquina a estradas, fábricas e escolas no Subcontinente, o lucro dos hidrocarbonetos passa por uma metamorfose que a elite bem-pensante nunca entendeu e jamais entenderá.

A Venezuela, ademais, acaba de descolar o certificado UNESCO de analfabetismo zero. Pois pobre – por incrível que pareça – só aprendeu a escrever agorinha, porque quem governou até o limiar do novo milênio não achou tempo nem recursos para missão tão básica.   

Em meio a tanta virtude, contudo, a República Bolivariana comete um grande pecado do ponto de vista norte-americano. Porque disponibiliza o petróleo de Maracaibo para o desenvolvimento latino. É parte integrante do projeto, e disso não faz segredo. Mas a abertura da torneira para cá haverá de secar os fluxos para fora. E os investimentos da PDVSA em oleodutos e refinarias nos vizinhos caminham nesse sentido. Uma tendência que Washington entende barrar a todo custo.

O bolivarianismo é assim alvo de todos os complôs. Mas a democracia participativa produz por si só o concreto armado da resistência …

O arroz com feijão do marketing contra passa a impressão de um poder populista, concentrado e personalizado na figura do chefe de Estado. A realidade, contudo, revela um formigueiro político a diluir a função decisória em centenas de entidades populares sem equivalentes no sistema representativo. O Brasil, com efeito, vota e debanda para virar espectador entre dois pleitos. Mas o povo venezuelano fica de plantão num envolvimento cidadão permanente que não concebe ação intermitente nem delegação cega de autoridade.

A constituição bolivariana – única a referir-se a cada cargo político no feminino e no masculino! – desloca notoriamente a deliberação para as bases. E é de se reparar a quebra da clássica trilogia “Legislativo-Executivo-Judiciário” com o acréscimo do Poder Cidadão, visando esvaziar a esfera estatal para animar um espaço público distinto.

A espinha dorsal do sistema reside nos Consejos Comunales para onde convergem os principais vetores de força. Mas há – além disso – comitês e células para todo assunto e todos os gostos.

O cenário lembra muito a governança municipal petista de alguns anos atrás: uma reunião para o asfalto … outra para a creche … mais uma para o quebra-mola …

Para falar a verdade, essa mobilização constante não faz meu gênero, pois prefiro ficar em casa e descansar em família. Mas meus gostos pessoais não invalidam a experiência. E, se democracia é comando pelo povo, devo admitir que o modelo expressa muito bem o conceito.

A autoridade é tão difusa que não se poderia pensar em golpe de Estado, mesmo porque não haveria como localizar o poder para tomá-lo … o que explica certamente o fracasso da tentativa de 2002 quando a pressão da rua inspirou a reação da tropa leal e o restabelecimento do governo legítimo. Um episódio – diga-se de passagem – em que Madri mergulhou até o pescoço e que explica o bate-boca com o rei Juan Carlos na Cúpula Ibero-Americana. Porque é exatamente disso que se tratava no momento da majestosa grosseria.

A arrogância, por sinal, não é monopólio dos ibéricos, pois o Parlamento Europeu em peso se achou no direito de meter o bico com uma moção de censura condenando a proposta de emenda constitucional visando quebrar o limite de dois turnos sucessivos na presidência venezuelana.

Mas aonde belga, holandês ou dinamarquês se acha titulado a opinar sobre o que a América Latina pode ou não pode submeter a referendo ?!? Tente imaginar o Congresso brasileiro tomando partido numa questão sucessória do Grão Ducado de Luxemburgo !! E por cúmulo de ironia, os 27 membros da União Européia têm eles mesmos sistemas em que primeiro ministro, presidente ou chanceler pode se suceder a si mesmo 10 ou 100 vezes conquanto for o gosto do eleitorado.

Se Paris quiser ver a Bruna por mais 20 anos, é só votar no Sarkozy até 2028, com garantia de total discrição por parte de Caracas que não irá incomodar com qualquer crítica nem exigir mudança de regra. E quer saber mais: a metade do velho Continente – a começar pela Espanha, justamente – tem reis e rainhas que povo algum jamais escolheu.

Entonces, porque no se callan!

O fato é que as emendas em questão foram objeto de um debate popular sem precedente em que a sociedade civil em peso discutiu cada vírgula das 30 sugestões do Executivo para retornar mais umas 30 em fim de circuito. Um pouco mais de 60 propostas formaram assim a matéria de uma consulta em que cada um se expressou mais uma vez para finalmente rejeitar o todo por margem de 1%.

Escolas, sindicatos, associações de classes, centros comunitários e botecos devoraram o texto em meses de discussão e formaram uma opinião refletida numa experiência exemplar e ordeira de governo pelo povo a deixar Miriam Leitão em pânico explícito!           

A verdade é que quase cada venezuelano – pro ou contra – conhece sua constituição na ponta da língua. Uma verdadeira raridade num mundo massacrado com futebol e novela …  

No total, Chavez talvez seja o chefe de Estado mais eleito do mundo. Ganhou duas presidenciais. Passou por dois referendos. Saboreou a vitória. Aceitou a derrota. Botou os conterrâneos para pensar. Organizou o contraditório. Alcançou resultados estupendos. E, francamente, é difícil ver naquilo um indício de despotismo.

Não podendo negar o óbvio, a turma do contra ocupa a mente com uma eventualidade. “Ah! Mas o Hitler também ganhou no sufrágio universal e usou a democracia para impor tirania. Então, cuidado! Pode ser um disfarce para melhor dar o bote”.

Sim. Mas se minha tia fosse homem, ela seria meu tio. Teria bigode, voz grossa e problema de próstata depois dos 50. Porém, é mulher e nada disso acontece nem acontecerá. Caso você queira tirar os olhos da realidade, contudo, é só acompanhar a mecânica mental de Renato Machado e viajar na hipótese.

Para desmentir mais uma mídia-manipulação que tomou conta da sua cabeça: o companheiro Presidente – contrariamente ao que você pensa – nunca controlou a imprensa nem tirou a liberdade de expressão de quem quer que seja. O aparato ideológico, aliás, tem perfil diametralmente oposto à imagem projetada, pois 80% do total – na ponta da caneta – se compõe de jornais, estações, e canais privados que odeiam a experiência chavista e alimentam uma oposição ferrenha. Uma verdadeira lavagem cerebral! Sem mentira. E desafio qualquer um de provar o contrário na matemática.

O governo bolivariano não proíbe ninguém de falar. Apenas cria seus meios. Entre os quais a TELESUR a vocalizar uma postura contra-hegemônica até pouco impiedosamente excluída. Cria, pois, um embrião de pluralismo há muito abortado no oligopólio mediático latino-americano. E a não renovação de licença da RCTV não teve outro motivo que o acintoso envolvimento no golpe de 2002 … em que – sem contar bilionários prejuízos – morreram mais de 30 pessoas.

Canal de televisão é para informar e não para fazer revolução, pois isto não entra no contrato de concessão. E se a Record comprasse a moda, Brasília não teria dúvida em tirá-la do ar exatamente pela mesma razão.

No total, Chavez me deixa frio, porque amor ou ódio não têm posto no balanço custo/benefício com que avalio político. O saldo, neste caso, me parece positivo, porém o interesse em defender um homem não move meu artigo. É antes o resgate da soberania popular que está em jogo. Porque votar e optar implica um juízo que a desinformação aborta sem apelo. É preciso, pois, democratizar o próprio processo democrático. E isso passa pela quebra do monopólio informativo. Uma mudança que pode demorar. Concordo. Mas, por enquanto, vai um conselho de amigo: desliga a televisão e olha para o mundo.

II DEBATE: Coréia do Norte: Quo Vadis? (Parte II)

B. C. Altenburg

 Adaptar ou perecer?

 Este texto reflete alguns pequenos argumentos de resposta ao artigo escrito por João H. R. Roriz na primeira parte deste debate.

 Alguns erros sucessivos da já acostumada a catástrofe de furadas de inteligência CIA permitiu que a Coréia do Norte conseguisse desenvolver seu potencial nuclear debaixo dos olhos da administração Bush Júnior. Muitos analistas desta administração neocon argumentavam que Pyongyang jamais conseguiria chegar a ter armas nucleares por si só (aliás, ainda não se tem certeza se realmente chegaram lá sozinhos).

 Enquanto os EUA erraram no plano estratégico-militar, os japoneses erraram no diplomático. Acertadamente o governo de Shinzo Abe já vinha argumentando o perigo nuclear norte-coreano há tempos, mas quando confiou a sua desestabilização ao governo americano, cometeu um grasso passo em falso.

 E, se a situação já está perigosa com o baixinho e caricato King Jong-il, Moscou, Pequim e Seul sabem que a coisa pode ficar pior sem ele. Ditadores sanguinários de longa data tem, geralmente, a única vantagem de representar certa estabilidade nos locais onde governam. Até mesmo por isso são de longa data. Ou seja, ruim com eles… e talvez pior sem eles. De qualquer forma, o sucessor do baixinho atômico invocado pode significar mudanças. E como em política internacional, deve-se sempre esperar o melhor e estar preparado para o pior… E o pior nesse caso…

 Em um rápido exercício, contemplemos algumas opções:

 Opção 1: Guerra (como opção número 1? “Claro!”, responderiam os neocons de Bush / Cheney). Bastante improvável, como já escreveu nosso amigo João Roriz. Além das armas nucleares das duas partes neutralizarem seu uso, o exército norte-coreano está entre os maiores do mundo. Provavelmente daria uma peia grande nos seus irmãos do sul e quem sabe até nos americanos. Uma guerra convencional implicaria em muitas perdas humanas, o que reflete a uma proporção negativa de votos em Washington. Cousas de democracias.

 Opção 2: Sanções. Geralmente econômicas, inclusive de armamentos. A economia norte-coreana já sofre há tempos e até hoje não cedeu. Esta pode ser uma opção de pressão, mas a história ensina que, por si só, não é capaz de mudar a situação por completo.

 Opção 3: Contenção, isolamento e pressão. Pode ser combinada com a opção 2. Pode funcionar. Mas também pode ser um tiro pela culatra – ou seja, vai que o sucessor do King Jong-il é ainda mais imprevisível. O mais cotado é o King Jong-un, seu terceiro filho. Mas vai que acontece um golpe militar. Pior, vai que exista um período de vácuo de poder. Ninguém no poder pode ser catastrófico. Olhem para a Somália. E ainda com armas nucleares? Combinação fatal.

 Opção 4: “Chinanização”. Mudança interna de política externa – adaptação do “regime comunista” ao mundo moderno e conseqüente inclusão na sociedade internacional. Para isso acontecer, quem tem que agir – concordando com o João Roriz – é Pequim e não Washington. Ou melhor, os dois juntos. Esta opção não é nada fácil, por uma série de fatores.

 Mas me parece que a opção 4 pode ser a mais interessante. Como consegui-la são outros quinhentos. De qualquer forma, foi assim que a China evitou o destino da União Soviética, adaptando seu regime para evitar o colapso. Em um mundo pós-Guerra Fria, me parece que a mentalidade dos tempos de bipolaridade não vão trazer frutos a Pyongyang. O sistema internacional não parece disposto a permitir movimentos anti-sistêmicos de contestação ao status quo. Porque vai que outros começam a ter essa mesma ideia e começamos uma nova escalada de armas nucleares…

II DEBATE: Coréia do Norte: Quo Vadis? (Parte I)

Dança de estratégias

João H. R. Roriz

 Enquanto os céus estadunidenses eram coloridos por fogos de artifício no dia 4 de julho, a paisagem do céu norte-coreano tinha tons bem diferentes e uma fumaça mais perigosa. Em clara provocação ao governo de Washington, o governo de Pyongyang lançou no dia da independência estadunidense sete mísseis do tipo Scud com alcance de 500 quilômetros. Desde os testes nucleares, a Coréia do Norte já testou diversos mísseis, em aberto desafio às sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, que proibiu quaisquer atividades de lançamento de mísseis.

 Os mísseis caíram no mar que divide a Coréia e o Japão, mas segundo militares sul-coreanos poderiam ter atingido o Japão, caso fosse realmente a intenção. Enquanto os governos da Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos protestaram contra os testes, a China (país que tem política mais próxima do governo norte-coreano) e a Rússia pediram calma para lidar com a questão.

 Entre rumores da saúde do governante King Jong-il, que aparentemente sofreu um ataque do coração no ano passado, a situação interna da Coréia do Norte ainda parece um quebra-cabeças de difícil solução. Até o momento, todas as tentativas de negociação para uma solução pacífica não tiveram frutos definitivos. Os governos Jimmy Carter e Bill Clinton optaram por tentar resolver a questão através da diplomacia. George W. Bush buscou uma opção mais dura quando incluiu o governo de Pyongyang no chamado “Eixo do Mal” e deu um passo a mais ao impor sanções. Mas essa opção também falhou e a Coréia do Norte chegou a fazer testes nucleares em 2006. Quando as conversações mostraram algum sinal de vida, apoiadas pela vizinha China, a administração Bush retirou a Coréia do Norte do maniqueísta Eixo de Bush e retomou as negociações para a desnuclearização do país. No entanto, essa opção também fracassou posteriormente e a Coréia do Norte retomou seu programa nuclear.

 Dentro dos círculos da administração Bush não faltava pessoas simpáticas à opção mais extrema: guerra. Que o digam os iraquianos. Mas esta parece não estar entre as prioridades do governo Obama. De qualquer forma, a opção de conflito armado contra a Coréia do Norte não é tão simples assim. Desde a década de 1950 (quando os dois países foram divididos) até hoje as duas Coréias estão formalmente em estado de guerra. Enquanto o sul se engajou em modernização e industrialização, apoiado militarmente pelos estadunidenses, o norte focou na militarização, apoiado economicamente pela China. O exército norte-coreano é um dos maiores do mundo, está bem armado e os militares desempenham papel primordial na política interna. Segundo especialistas militares, uma invasão terrestre como aconteceu no Iraque seria impossível. As tropas norte-coreanas estão extremamente próximas de Seul, a capital sul-coreana. Além do mais, jamais houve uma guerra formal entre dois Estados detentores de armas atômicas – os riscos seriam enormes. Assim, uma guerra convencional parece ser uma opção muito distante e improvável.

 As esperanças para resolver o problema herdado da época da Guerra Fria parecem ter resposta em uma estratégia também dos tempos de bipolaridade. Distensão, isolamento, contenção e pressão foram táticas advogadas por estadunidenses para combater a União Soviética. Acreditava-se que o regime interno entraria em colapso e implodiria com o tempo, sem a necessidade de guerra formal. Contudo, a mesma estratégia com a Coréia do Norte é extremamente arriscada. O país poderia entrar em um caos interno e o vácuo de poder deixado por King Jong-il poderia ser ocupado por um governo ainda mais instável e imprevisível.

 Outro fator vital para o sucesso dessa opção são os vizinhos. O envolvimento dos grandes na região, como Japão e Rússia, é basilar. Mas provavelmente o ator mais importante é a vizinha China, que já foi a principal sustentadora do regime comunista norte-coreano. O governo de Pyongyang só estará realmente isolado e incapaz de manter economicamente o seu enorme exército caso o governo de Pequim também se engaje nessa alternativa. As esperanças de uma resolução fácil para a questão ainda permanecem longínquas e as estratégias para se evitar uma guerra nuclear ainda não deram resultados. Enquanto isso o mundo espera que, dessa vez, a diplomacia vença as armas.