TPI emite mandado de detenção para o presidente do Sudão

Alice Andrés Ribeiro

Quase quatro anos depois de o Conselho de Segurança da ONU ter remetido a situação de Darfur (Sudão) para o Tribunal Penal Internacional, foi emitido um mandado de detenção para o presidente sudanês, Omar Al Bashir. Embora não tenha sido acusado de genocídio, Bashir é suspeito dos seguintes crimes de guerra e crimes contra a humanidade:

– Crimes de guerra: homicídio; extermínio; deportação ou transferência forçada de uma população; tortura e; violação, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez à força, esterilização à força ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável;

– Crimes contra a humanidade: atacar intencionalmente a população civil em geral ou civis que não participem directamente nas hostilidades e; saquear um aglomerado populacional ou um local, mesmo quando tomado de assalto.

Embora não existam mecanismos legais que garantam que Bashir apareça perante o TPI em Haia, é extremamente significativo que um chefe de estado em exercício seja indiciado por um tribunal internacional permanente, que conta com 108 países membros.

Press release do Tribunal Penal Internacional (04/03/2009): http://www.icc-cpi.int/NetApp/App/MCMSTemplates/Content.aspx?FRAMELESS=false&NRNODEGUID={0EF62173-05ED-403A-80C8-F15EE1D25BB3}&NRORIGINALURL=/NR/exeres/0EF62173-05ED-403A-80C8-F15EE1D25BB3.htm&NRCACHEHINT=Guest#

ICC issues a warrant of arrest for Omar Al Bashir, President of Sudan

 

ICC-CPI-20090304-PR394 عربي

 

 

Situation: Darfur, Sudan 

Today, Pre-Trial Chamber I of the International Criminal Court (ICC) issued a warrant for the arrest of Omar Hassan Ahmad Al Bashir, President of Sudan, for war crimes and crimes against humanity. He is suspected of being criminally responsible, as an indirect (co-)perpetrator, for intentionally directing attacks against an important part of the civilian population of Darfur, Sudan, murdering, exterminating, raping, torturing and forcibly transferring large numbers of civilians, and pillaging their property. This is the first warrant of arrest ever issued for a sitting Head of State by the ICC.

Omar Al Bashir’s official capacity as a sitting Head of State does not exclude his criminal responsibility, nor does it grant him immunity against prosecution before the ICC, according to Pre-Trial Chamber I.

According to the Judges, the above-mentioned crimes were allegedly committed during a five year counter-insurgency campaign by the Government of Sudan against the Sudanese Liberation Movement/Army (SLM/A), the Justice and Equality Movement (JEM) and other armed groups opposing the Government of Sudan in Darfur. It is alleged that this campaign started soon after the April 2003 attack on El Fasher airport as a result of a common plan agreed upon at the highest level of the Government of Sudan by Omar Al Bashir and other high-ranking Sudanese political and military leaders. It lasted at least until 14 July 2008, the date of the filing of the Prosecution’s Application for the warrant of arrest for Omar Al Bashir.

A core component of that campaign was the unlawful attack on that part of the civilian population of Darfur – belonging largely to the Fur, Masalit and Zaghawa groups – perceived to be close to the organised armed groups opposing the Government of Sudan in Darfur. The said civilian population was to be unlawfully attacked by Government of Sudan forces, including the Sudanese Armed Forces and their allied Janjaweed Militia, the Sudanese Police Force, the National Intelligence and Security Service and the Humanitarian Aid Commission.

The Chamber found that Omar al Bashir, as the de jure and de facto President of Sudan and Commander-in-Chief of the Sudanese Armed Forces, is suspected of having coordinated the design and implementation of the counter-insurgency campaign. In the alternative, it also found that there are reasonable grounds to believe that he was in control of all branches of the “apparatus” of the State of Sudan and used such control to secure the implementation of the counter-insurgency campaign.

The counts

The warrant of arrest for Omar Al Bashir lists 7 counts on the basis of his individual criminal responsibility (article 25(3)(a)) including:

  • five counts of crimes against humanity: murder – article 7(1)(a); extermination – article 7(1)(b); forcible transfer – article 7(1)(d);
    torture – article 7(1)(f); and rape – article 7(1)(g);
  • two counts of war crimes: intentionally directing attacks against a civilian population as such or against individual civilians not taking direct part in hostilities – article 8(2)(e)(i); and pillaging – article 8(2)(e)(v).

Findings concerning genocide

The majority of the Chamber, Judge Anita Ušacka dissenting, found that the material provided by the Prosecution in support of its application for a warrant of arrest failed to provide reasonable grounds to believe that the Government of Sudan acted with specific intent to destroy, in whole or in part, the Fur, Masalit and Zaghawa groups. Consequently, the crime of genocide is not included in the warrant issued for the arrest of Omar Al Bashir. Nevertheless, the Judges stressed that if additional evidence is gathered by the Prosecution, the decision would not prevent the Prosecution from requesting an amendment to the warrant of arrest in order to include the crime of genocide.

Cooperation of States

The Judges directed the Registrar to prepare and transmit, as soon as practicable, a request for cooperation for the arrest and surrender of Omar Al Bashir to Sudan, and to all States Parties to the Rome Statute and all United Nations Security Council (UNSC) members that are not party to the Statute, as well as to any other State as may be necessary.

The Judges found that, according to UNSC resolution 1593 and articles 25 and 103 of the UN Charter, the obligation of the Government of Sudan to fully cooperate with the Court prevails over any other international obligation that the Government of Sudan may have undertaken pursuant to any other international agreement.

Pre-Trial Chamber I also found that the Government of Sudan has systematically refused to cooperate with the Court since the issuance of warrants for the arrest of the Sudanese Minister for Humanitarian Affairs, Ahmad Harun, and a regional Janjaweed militia leader, Ali Kushayb, on 2 May 2007. As a result, the Judges emphasised that, according to article 87(7) of the Statute, if the Government of Sudan continues to fail to comply with its cooperation obligations to the Court, the competent Chamber “may make a finding to that effect” and decide to “refer the matter […] to the Security Council.”

Furthermore, the Judges noted that the dispositive part of UNSC resolution 1593 expressly urges all States, whether party or not to the Rome Statute, as well as international and regional organisations to “cooperate fully” with the Court.

Information concerning “ICC issues a warrant of arrest for Omar Al Bashir, President of Sudan”

 


 

For further information please contact Ms Laurence Blairon, Spokesperson, at
+31 (0)70 515 87 14 or +31 (0) 6 46 44 88 89 or at laurence.blairon@icc-cpi.int.

Interviews can be arranged in English or French. In order to request such interviews, please call Mr Fadi El-Abdallah (French and Arabic media) at +31 (0)70 515 91 52 or Ms Kerry Picket (English media) at +31 (0)70 515 91 30.

3 Responses to “TPI emite mandado de detenção para o presidente do Sudão”


  1. 1 Prof Carlos Antônio Vilela 10/03/2009 às 10:44

    Prezada Alice Ribeiro,

    Salvo engano, o Sudão não faz parte do TPI, certo? Como pode então o referido tribunal indiciar um presidente que atua no cargo por crimes internacionais sendo que este Estado não aceitou a jurisdição do tribunal?

    Na minha singela visão, o Sudão não tendo assinado e ratificado o Estatuto de Roma não adquire obrigações internacionais referentes a essa decisão. Seria, então, tal decisão ilegítima e parte de uma imposição do direito de outros sobre o direito interno sudanês.

    Gostaria de saber sua opinião, se possível.

    Abraço,
    Carlos

  2. 2 Alice Andrés 18/03/2009 às 23:12

    Obrigada pelo comentário, professor!

    Tens toda razão: o Sudão não é um Estado-parte do Tribunal Penal Internacional, não tendo ratificado o Estatuto de Roma. Em casos como esse, uma situação – como a de Darfur – só pode ser remetida ao TPI pelo Conselho de Segurança da ONU.

    É importante lembrar que, devido ao princípio da complementaridade, o Tribunal Penal Internacional só deve entrar em campo nos casos em que a justiça do país em questão não puder ou não quiser tratar de maneira adequada os crimes que estão sob a jurisdição do Tribunal – como os crimes de guerra e crimes contra a humanidade dos quais al-Bashir é acusado.

    O TPI não conta com uma “polícia”, que possa prender acusados e obrigá-los a comparecer perante o tribunal – e não há nada que force países a cooperarem. Como lembra o João Henrique no post Omar al-Bashir como foragido da justiça ou parte do processo de paz?, entretanto, juridicamente, caso uma nação não coopere com o TPI, este pode através do artigo 87(7) do Estatuto de Roma remeter o caso ao Conselho de Segurança – e dessa vez os chineses e os países africanos que apóiam Cartum provavelmente não deixarão passar alguma resolução contra al-Bashir. Até agora a diplomacia sudanesa está se mostrando bem eficiente em aliciar aliados e elaborar uma estratégia de mídia e de defesa.

    Embora a chance de que al-Bashir compareça perante o TPI para seu julgamento ainda seja remota, acho importante ressaltar a importância da ação do Tribunal. Essa é a primeira vez que um chefe de governo, no poder, é acusado de tais crimes em um âmbito internacional. Isso não só manda a mensagem para os atuais e possíveis perpetradores de violações gravíssimas de direitos humanos, que “há alguém de olho”, como também tem um efeito de poder coibir ações futuras desse tipo.

    Na minha opinião, o Tribunal vem dando os primeiros passos na direção de buscar garantir os “nunca mais” ecoados depois da segunda guerra mundial, de Ruanda, pela comunidade internacional. Mas ainda há muito a ser feito. Há discussões acerca da legalidade da ação do Tribunal na situação de Darfur, da oposição entre paz e justiça, do não reconhecimento de países-chave com relação à forma de funcionamento do TPI. Mas, em todo caso, sou uma otimista convicta, e espero que a comunidade internacional logo se encontre pronta para honrar seus compromissos internacionais. Em 2005, por exemplo, os países-parte da Assembléia Geral da ONU concordaram que a comunidade internacional tem a responsabilidade de proteger populações contra genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Esse é o caso de Darfur.

    Grande abraço,
    Alice

  3. 3 Pablo Jimenez 23/03/2009 às 14:32

    Bela resposta Alice Andres.

    Vejo que eh uma partidaria dos direitos humanos e eh sincera no seu otimismo com relacao ao TPI. Sim, eu tambem gostaria de ver crimes contra a populacao sendo impedidos e criancas recebendo comida ao inves de balas de fuzil. Acho que nao tem uma soh pessoa que discorde disso.

    Mas, sinceramente acredita que a paz no Sudao eh beneficiada com esse argentino irresponsavel emitindo mandado de prisao a um Presidente de uma Republica??? Sinceramente?????

    A paz no Sudao nunca esteve tao proxima antes do Moreno Ocampo fazer essa besteria sem tamanho. Jah tinham ate assinado um acordo de paz. Tudo estava mais encaminhado e as tensoes em Darfur tinham diminuido.

    O que aconteceu depois do TPI? Interrompe-se o processo de paz, expulsam as ONGs e a guerra pode recomecar, pior do que antes. Se voce se preocupa com direitos humanos, nao eh pior para as pessoas que estao em Darfur que haja guerra?

    E, mesmo que al-Bahisr seja preso – o que eu duvido muito – que diferenca isso faz se nao for acompanhada da paz? A verdade que esses juristas muitas vezes nao enxergam eh que soh existe justica se existir paz – e nao o inverso.


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